segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O INFINITO EM OUTRAS VOLTAS

Décimo romance solo de Diedra Roiz
Escrito entre 20 de Junho de 2014 e 09 de Janeiro de 2015.
Postado de 29 de Setembro de 2014 a 09 de Janeiro de 2015.

OBS IMPORTANTE: 

A história não está completa, disponibilizamos apenas os três primeiros capítulos para degustação. 



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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?




SINOPSE 
"Se duas pessoas anseiam se encontrar, elas jamais se distanciarão. Se uma pessoa deseja isso fortemente, mas a outra não alimenta o mesmo desejo, elas se encontrarão apenas algumas vezes." (Nitiren Daishonin)
As histórias de Letícia e Paula, de "O Infinito em Duas Voltas".


OBSERVAÇÃO SUPER IMPORTANTE:  
Este romance é uma continuação, para melhor compreensão da história é recomendável ler primeiro:
O Infinito em Duas Voltas
http://www.oinfinitoemduasvoltas.blogspot.com.br/




ATENÇÃO: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão impressa (livro) e digital (ebook), por isso a história não está mais disponível na íntegra. 



MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:














OBS IMPORTANTE: 
A história não está completa, disponibilizamos apenas os três primeiros capítulos para degustação. 

CAPÍTULO 01



OBS IMPORTANTE: 

A história não está completa, disponibilizamos apenas os três primeiros capítulos para degustação. 

Paula ficou parada na frente da porta automática, pensando... Durante um tempo que jamais conseguiria determinar.

Só depois a atravessou e deixou o hospital, com a decisão definitiva: da mesma forma, sairia da vida de Letícia.

Ia esquecê-la. Mesmo se para isso precisasse... De quê? Ainda não sabia, mas iria... Na verdade precisava descobrir. O que não podia, não suportava mais, era ficar presa a falsas esperanças, sofrendo por um amor que tinha terminado, por uma pessoa que... Não estava nem aí.

Chegou em casa e continuava tudo igual: o irmão jogando videogame na sala com os amigos, a irmã brincando no quarto dela, os pais sem terem chegado de seus respectivos trabalhos...

Doeu.

Mais ainda... A percepção do quanto o que sentia parecia tolo, não fazia diferença, não tinha a menor importância, como era estúpida e irreal a impressão, a sensação que tinha, de que o mundo pararia e terminaria só porque tinha o coração ferido.

Sangrava...

Mas apesar disso, a vida prosseguia.

Cabia a ela trocar os curativos até que cicatrizasse. Deixando uma marca, bem verdade.

Serviria para lembrar e sinalizar para que, da próxima vez, tomasse mais cuidado.

Quando entrou no próprio quarto, foi pior ainda. O espaço há muito tinha deixado de ser só dela, estava repleto de lembranças.

O primeiro beijo...

A primeira vez...

Três anos de namoro, noites e dias intensos. Brigas, reconciliações e por fim...

O término.

Nem de olhos fechados conseguia deixar de sentir. Estava ali, em cada objeto, por todos os lados, quase palpável. Para onde quer que olhasse.

Letícia... Letícia... Letícia...

Na verdade, pior, muito pior...

A ausência dela.

Fechou e trancou a porta, os olhos cheios de lágrimas que se tornaram soluços. Algo tão corriqueiro nos últimos dois meses que quase já tinha se tornado um ritual.
Mas ao contrário de todos os outros dias depois que Letícia tinha terminado com ela, não se deitou na cama, não mergulhou no redemoinho até que ele a puxasse totalmente para o fundo.

Sem parar de chorar - mas sem nenhuma apatia naquele choro - começou a recolher todos os presentes, bilhetes, fotografias que encontrava, foi jogando tudo dentro da lixeira do quarto.

Era pequena demais.

Rapidamente começou a transbordar...

Parou com o cd de Belle & Sebastian na mão. Olhou para a dedicatória na capa:

“Esse é só o início da nossa trilha. Se depender de mim, eternamente juntas. Paula, você é o amor da minha vida!”

E lembrou...

Do dia, o instante exato em que o tinha recebido.

Letícia estendendo para ela, com um sorriso incrível... O beijo que se seguiu, e que perdurou... Enquanto se despiam... Se descobrindo, se encontrando, se revelando...

Juntas...

De um jeito assumidamente masoquista, colocou o cd na última faixa: "There's too Much Love", a mesma que havia embalado vários momentos de amor das duas, começando por aquele primeiro.

Durante um instante que pareceu infinito, ficou parada, apenas ouvindo...

Sem conseguir explicar, muito menos controlar o que estava sentindo.

Foi num outro tom, inteiramente enfurecido, que abriu o armário. E arrancou dos cabides, tirou das gavetas... A calcinha que Letícia mais gostava que usasse, a que tinha tirado dela com os dentes, a blusa que estava vestindo no aniversário dela, o vestido que fazia Letícia olhar para ela de um jeito deliciosamente tarado...

O armário estava quase vazio quando percebeu que, seguindo esse pensamento, todas as roupas que tinha precisariam ser descartadas.

Começou a rir no meio do choro que ainda não havia cessado... Levou as mãos à cabeça, as palmas na testa...

E gargalhou...

Da mesma maneira descontrolada como se deixou cair ajoelhada em cima do monte que as roupas tinham formado no chão, a dor ganhando uma nova companhia: a raiva... Que a fez repetir, vezes e vezes sem parar:

- Filha da puta! Filha da puta! Filha da puta!  

Enquanto batia em si mesma... No peito, nos braços e na cara... Até que a exaustão finalmente a fez deitar e permanecer ali, imóvel...

Largada sobre a própria frustração e mágoa, na escuridão mais profunda, silenciosa e vazia.





Continuava ali, no mesmo lugar, quando horas depois, a mãe bateu na porta:

- Paulinha... Abre...

Levantou e fez o que a mãe pediu, sem acender a luz. Inútil. Ela enxergava além.

Passou a mão no rosto dela carinhosamente. Depois a abraçou com força:

- Ah... Eu não consigo te ver assim... E não falar nada...

Beijou-a, segurou o rosto da filha entre as mãos e completou:

- Olha pra mim, Paula. Conversa comigo. Ou você não confia mais em mim?

Involuntariamente, Paula se soltou e recuou:

- Não se trata de confiar, mãe... É só que... Tem coisas que... Eu não tenho como falar pra ninguém, nem pra você.

Não adiantou. Na verdade, só piorou. A mãe acendeu a luz, viu o quarto todo revirado e... Assustou-se:

- O que aconteceu aqui?

Com um sangue frio que nem sabia possuir, Paula respondeu:

- Eu só estava tentando reorganizar...

O tom que a mãe usou fez Paula ter certeza de que ela tinha captado o dito e o não dito. Tudo que havia contido na frase:

- Parece que passou um furacão, uma tormenta... Ou quem sabe... Um tormento.

Entrou e fechou a porta atrás dela antes de finalmente dizer:

- Eu fiquei sabendo que você foi ver a Letícia no hospital. Como ela está?

Antes que pudesse formular a pergunta que tinha na ponta da língua, a mãe completou:

- O seu irmão me contou.

Amaldiçoou internamente o momento de desespero quando Leonardo ligou. Deixando-a não só incapaz de mentir ou fingir, mas também... Fora de si a ponto de chorar e falar com Felipe, o bestinha fofoqueiro de quatorze anos. Sem nem se tocar que, como sempre, o punheteiro iria correndo entregar tudo para a mamãe.

- Eu não vi a Letícia. Mas ela tá bem.

Olhou para a mãe e não aguentou:

- A namorada dela estava lá...

Foi o que bastou para começar a chorar. A mãe a abraçou, mas não disse nada. Ficou calada, escutando Paula:

- Ah, mãe... Eu ainda tinha esperança... Eu achava que... Ela ainda me amava... E a gente ia voltar... Mas depois de hoje... Ela... A Letícia tá em outra, eu... Também preciso... Mas eu não consigo... Eu não sei como...

Os soluços a impediram de continuar a falar. Deixou-se beijar, abraçar e acariciar, absolutamente fraca, como se voltasse a ser criança e precisasse do colo e dos conselhos dela.

- Filha... Isso vai passar.

Paula se sentiu... Totalmente idiota e infantil. Expressou isso com toda a sinceridade, enquanto fungava e soluçava:

- Eu... Eu sei que... É bobagem...

A mãe fez com que ela a olhasse:

- Não é bobagem. Nunca deixe ninguém, nem você mesma, dizer que o que você sente é bobagem.

Beijou-a antes de prosseguir, com a mesma seriedade:

- É importante sim. Agora. Mas daqui a pouco não vai ser mais.

Deixou que a mãe limpasse e enxugasse o rosto dela com as mãos, enquanto pensava... No quanto ela estava certa e tinha razão.

Estava quase tranquila quando os olhares voltaram a se encontrar.

- Paula, sabe o que nós vamos fazer? Encontrar alguma coisa que possa te dar prazer e te alegrar.

Olhou em volta e foi totalmente perspicaz:

- Roupas novas?

Arrancou de Paula um meio sorriso...

- Trocar a sua cama?

Que cresceu e se tornou inteiro quando a mãe arrematou:

- Vamos mudar toda a arrumação do seu quarto!

Paula estava sorrindo de verdade quando abraçou a mãe:

- Ah, mãe... Obrigada...





Assim que Paula chegou à escola, Sarah e Vitor a interceptaram no corredor. Não fizeram rodeios:

- A Letícia está aí.

A ausência dela havia se prorrogado por alguns dias depois do acidente, brindando Paula com uma estranha espécie de alívio... Que agora, chegava ao fim.

Não foi sincera com os amigos:

- E eu com isso?

Mas eles a conheciam:

- Achamos melhor te avisar...

- Pra você não entrar na sala e ter uma... Surpresa.

Ainda assim, continuou fingindo. Na esperança vã de que assim talvez conseguisse... Convencer a si mesma:

- Pra mim tanto faz. Não tô nem aí.

Sorriu... E voltou a caminhar... Em direção ao inferno que ainda duraria alguns dias, até as aulas terminarem e, com elas, o ensino médio.

Vitor e Sarah apenas se entreolharam antes de a seguirem.

Respirou fundo antes de atravessar a porta. Assim que entrou na sala, viu Letícia.

Como se sentisse a presença de Paula, ela se virou... Os olhos se encontraram... E Letícia sorriu.

Fazendo Paula sentir-se... Idiota e fraca...

Foi com muito esforço que desviou os olhos e dirigiu-se a uma das mesas. As pernas bambas, as mãos trêmulas, a boca seca... Precisava se sentar...

Antes que atingisse seu objetivo, ela a alcançou:

- Oi!

Engoliu em seco, esperando que ninguém, principalmente ela, notasse:

- Oi.

Como se tivessem vontade própria, os olhos a buscaram, subiram pelo corpo de Letícia, até encontrarem os olhos, a pulsação disparando, da mesma forma involuntária...

- Obrigada... Por você ter ido lá no hospital...

Paula não foi capaz de responder.

Felizmente, Vitor e Sarah a salvaram:

- Letícia! Tudo bem?

- Como você tá?

Letícia virou-se para eles sorrindo:

- Melhor impossível!

Não ouviu o resto.

Sentou-se, com a certeza de que aquele final de semestre seria... Torturante.

Felizmente, passou rápido, muito mais rápido do que Paula poderia supor, imaginar ou esperar.





Paula deixou escapar um suspiro antes de tomar mais um gole da long neck que segurava. Olhou para Sarah, que estava sentada no sofá ao lado dela, aos beijos com a namorada.

A felicidade da amiga a deixava numa estranha dualidade de sentimentos. Feliz por ela, mas... Ao mesmo tempo... Aquilo parecia apontar, exacerbar, deixar ainda mais sensível a solidão em que se encontrava. 

Desde a formatura, dois anos atrás, nunca mais tinha visto Letícia. Feliz ou infelizmente, não sabia ao certo. Cursavam faculdades diferentes e os amigos em comum haviam se dividido, como bens repartidos, então não tinham mais nenhum contato.

Depois que ela e Letícia haviam terminado, tinha ficado com outras garotas - poucas - feito sexo com um número menor ainda... Apenas duas. Na verdade, tinham sido momentos efêmeros e superficiais. Nenhum que a fizesse sentir... O que realmente desejava. Exatamente por isso, fazia mais de seis meses que... Nada. 


Levantou e se afastou... Sem que ninguém reparasse. Caminhou pela festa, passando entre as pessoas como tinha feito durante os últimos vinte e quatro meses: como se não estivesse ali de verdade.

Foi até a sacada, afastou-se do casal que se agarrava num canto. A última coisa que queria era atrapalhar... Quem tinha o que lhe faltava.

Debruçou-se na murada, olhou para a rua, observou com uma desatenção despreocupada os carros que passavam lá embaixo. Bebeu mais da cerveja que ainda segurava... E riu... Em parte de si mesma... Em parte por ter bebido um pouco além do que estava acostumada...

- Será que eu posso rir com você?

Ficou absolutamente sem graça.

Até olhar para a garota que sorria para ela, de um jeito que deixou Paula incrivelmente interessada.

Já a tinha visto várias vezes na faculdade. Estava em um dos últimos semestres de... Odontologia, talvez? Não tinha muita certeza. Só sabia que ela dividia apartamento com a melhor amiga da namorada de Sara, já tinha até ido numa festinha na casa delas.

Vasculhou a memória à procura do nome... Mas não precisou se esforçar. Ela estendeu a mão, como se lesse seus pensamentos:

- Natália.

Colocou a mão na dela e... Estranhamente, o simples contato das peles fez a voz soar fraca:

- Paula.

Nenhuma das duas retirou a mão, muito pelo contrário. Natália apertou a de Paula de leve:

- Eu sei o seu nome... Faz um tempinho já.

Voltou a sorrir. Paula correspondeu sem nem sentir... Os olhos igualmente colados.

Nenhuma das duas disse mais nada, aproximaram-se, atraídas por uma força irresistível...

Quando as bocas se encontraram, Paula não conseguiu compreender de imediato, por que... Derrubava todas as certezas que tinha... De que não sentiria aquilo com ninguém mais...

Não foi capaz, nem quis pensar no que significava ou deixava de significar.

Entregou-se...

Permitiu-se ser tragada, mergulhou sem pudores, barreiras ou ressalvas no prazer que o toque dela causava...

Quando deu por si estava encostada na parede, os dois corpos se friccionando de uma forma deliciosamente incendiária...

Natália subiu a boca pelo pescoço dela e sussurrou, com a mesma arfante dificuldade que Paula sabia que também teria se tentasse falar:

- Vamos... Pra minha casa?

Concordou com um aceno de cabeça, sem soltá-la.

Foi Natália que se afastou, apenas o suficiente para colocarem as roupas no lugar. Depois segurou Paula pela mão e a puxou pela sala em direção à saída. Antes que a alcançassem, Paula se viu obrigada a pará-la:

- Espera... Eu preciso muito ir no banheiro.

Natália sorriu:

- Tá. Te espero aqui.

A urgência dupla fez Paula ser rápida. Felizmente não havia fila, em questão de poucos minutos já estava saindo do pequeno lavabo, pronta para voltar para Natália.

Assustou-se.

Ficou inteiramente paralisada.

Quando se deparou com Letícia, tão perto da porta que, quando a atravessou, praticamente caiu em seus braços.

- Paula...

Foi a única coisa que Letícia disse, antes de segurar Paula pela cintura, puxá-la para si e beijá-la...





Por mais que Paula soubesse que deveria... Que precisava...

Foi impossível resistir.

A fraqueza a derrotou com uma força inabalável, que respondia única e exclusivamente à saudade, à vontade, à incapacidade de negar a própria necessidade.

Naquele momento, a razão pareceu abandoná-la.

A única coisa que importava era a boca, os lábios, a língua, as mãos... A perfeição do encaixe, da fusão, da fissão...  

A respiração que se alterava, entrando num ritmo que repetia: Letícia... Letícia... Letícia...

Com os braços enlaçando-a pelo pescoço, a única coisa que Paula conseguiu fazer foi deixar...

O corpo inteiro se entregar, se arrebatar, se extasiar...

Como se ali, com ela, a existência começasse e terminasse.

- Vem comigo.

Letícia sussurrou, fazendo com que Paula voltasse a si. Gaguejou um protesto fraco:

- Não, eu... Não...

Abriu os olhos bem a tempo de ver... Natália parada a alguns metros, olhando para as duas, antes de virar-se e afastar-se.

Ficou absolutamente dividida... Entre correr atrás de Natália e desculpar-se... Ou permanecer nos braços de Letícia.

- É sua namorada?

Não foi a pergunta, mas a resposta que fez com que se decidisse:

- Não.





Letícia estava diferente.

Não só por ter carro, ou por ter mudado o estilo de roupas que usava, mas... Paula não sabia definir de uma maneira exata, não passava de uma sensação, algo abstrato.

Como se percebesse o que Paula estava pensando - pelo menos em parte - Letícia olhou para a própria roupa, fez uma careta e tentou se justificar:

- Vim direto do estágio.

Paula apenas acenou com a cabeça, preferindo não revelar para Letícia... O quanto ela ficava linda vestida de um jeito mais formal.

- A Júlia acha que nunca é cedo para se começar a trabalhar e a minha mãe concorda com ela, claro! Como sempre... Em gênero, número e grau.

Riu com uma ironia quase ácida, a mesma que usou ao completar:

- Mas não posso reclamar, muito pelo contrário. Afinal, ela me arrumou o estágio perfeito, exatamente no telejornal que eu queria.

O olhar de Paula... Disse mais do que mil palavras. Letícia compreendeu de imediato:

- Eu gosto da Júlia. Ela faz a minha mãe feliz de verdade.

Impossível para Paula deixar de dizer:

- Não foi o que pareceu.

Letícia tentou se esquivar:

- É complicado demais, não sei explicar.

Mas Paula pediu:

- Tenta?

 Depois de um suspiro, Letícia falou:

- Ah, sei lá... Só falei assim por que é com você, foi tipo... Uma espécie de desabafo. Com qualquer outra pessoa eu mediria minhas palavras.

Não era, nem de longe, o que Paula queria saber. Insistiu:

- Não quer me contar?

Foi a vez de Letícia pedir:

- Vamos mudar de assunto?

Num tom que fez Paula desistir:

- Tudo bem.

Mas era claro que não estava.

Um silêncio absolutamente incômodo se estabeleceu.

Foi Paula que o interrompeu:

- Pra onde estamos indo?

Quando Letícia pegou um caminho desconhecido.

- Pra minha casa.

Ela sorriu... Lindamente... Antes de completar:

- É mais uma longa história, quer escutar?

Paula nem precisou pensar, estava verdadeiramente interessada:

- Claro.

O tom que Letícia usou foi impessoal, quase distanciado:

- Meu pai casou de novo e se mudou. Então vendemos o apartamento, o Léo comprou um e eu comprei outro. Com a ajuda da minha mãe, óbvio. Mais uma das muitas vantagens de ter Júlia Prantine como madrasta. Dinheiro não é problema.

O jeito que Letícia disse a última frase... Fez Paula voltar a questioná-la:

- Então qual é?

Letícia compreendeu. Para Paula era claro. Ainda assim, tentou disfarçar:

- O quê?

Paula foi direta, não mediu as palavras:

- O seu problema.

Letícia riu... De um jeito assustadoramente amargo:

- Nenhum. Sou uma afortunada.

Paula não teria insistido, nem perguntado mais nada. Foi Letícia que completou, num tom completamente diferente, doce e suave:

- Eu sinto a sua falta.





Depois disso, Paula não viu o apartamento, na verdade ela não viu nem quis ver mais nada... Além de Letícia... Era só ela que interessava.

As roupas caíram lentamente, bem devagar... Em meio a milhares de beijos e carícias sem pressa alguma, estavam as duas no mesmo ritmo absolutamente sensorial...

Gosto, cheiro, som, tato...

E a imagem...

Da pele ao desnudar-se...

Até ficarem inteiramente despidas... De si mesmas e parecer que... Somente uma na outra... Era a única forma de se reencontrarem...

- Paula... Paula... Eu te amo... Paula...

Letícia repetiu, ondulando sobre e sob a boca, o corpo, as mãos, os dedos, a língua de Paula... De forma incansável...

E Paula correspondeu, acolhendo-a e acompanhando-a integralmente, ofegando com a mesma vibrante, veemente e cúmplice intensidade:

- Eu também, Le... Te amo muito... Demais...

Compartilharam aquele amor que julgavam perdido... Sem limites, barreiras ou entraves... Durante aquela noite inesquecível, que pontuou uma passagem...

A consciência da diferença que existia... Entre o que queriam, o que poderiam....

E a realidade.





Acordaram com a campainha tocando sem parar e batidas furiosas na porta:

- Letícia! Eu sei que você está aí! Letícia, abre!

Paula sentou na cama, instintivamente enrolada no lençol, e olhou para Letícia, que deixou escapar baixinho:

- Puta que o pariu...

Antes de levantar e começar a se vestir.

Perguntou o que já sabia:

- Quem é?

Apenas para que Letícia constatasse:

- A minha namorada.


CONTINUA... 




ATENÇÃO: Os direitos autorais desta obra foram adquiridos pela Editora Vira Letra, que irá publicá-la em versão impressa (livro) e digital (ebook), por isso a história não está mais disponível na íntegra. 


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postado originalmente em 29 de Setembro de 2014 às 18:00.




https://www.youtube.com/watch?v=FXAbar6PzRA